Pneu para viagem overland: como escolher, calibrar e quantos levar
AT é o pneu que resolve 95% das rotas overland. Como escolher entre HT, AT e MT, calibrar em ripio e quantos estepes levar.

Pneu para viagem overland: como escolher, calibrar e quantos levar. Pneu é o item de preparação que mais gera dúvida e mais gera erro. A maioria dos overlanders brasileiros subestima porque o carro roda bem na cidade com o pneu de série e descobre na primeira estrada de cascalho da Argentina ou da Bolívia que o problema não era o pneu, era o tipo errado de pneu pro tipo errado de terreno. Em ripio, o pneu errado não é só desconforto: é furo garantido, é desgaste antecipado, e em alguns trechos é risco real de acidente. Esse artigo é o guia prático de pneus pra viagem overland. Cobre o que cada tipo entrega, como calibrar pra diferentes terrenos, quantos estepes levar, e o que fazer quando fura longe de qualquer borracharia.
Resumão: pra viagem overland pela América do Sul, o all-terrain (AT) é o pneu que mais acerta o equilíbrio entre asfalto, ripio e off-road leve. O highway (HT) de série não aguenta ripio sério. O mud-terrain (MT) é excessivo pra maioria das rotas. Leve dois estepes pra qualquer viagem com trecho de cascalho. Calibragem varia: 32-36 psi no asfalto, 26-28 psi no ripio, 18-22 psi no off-road pesado.
Os três tipos de pneu e o que cada um aguenta. Highway Terrain (HT) O pneu que vem de série na maioria dos SUVs e picapes vendidos no Brasil. Desempenho excelente no asfalto, silencioso, confortável, eficiente no consumo de combustível. Em ripio leve aguenta, mas o composto é mais macio e a banda de rodagem menos agressiva. Em ripio severo, o risco de furo sobe e o desgaste acelera muito. Em trilha ou lama, não é o pneu. Se a viagem é 90% de asfalto com um ou dois dias de cascalho tranquilo, o HT de série passa. Pra qualquer coisa mais séria, troca antes de partir. All-Terrain (AT) O pneu da maioria dos overlanders. Composto mais resistente, banda de rodagem intermediária, serve bem no asfalto (mais ruído que HT, consumo ligeiramente maior) e se sai muito bem em ripio, cascalho, terra batida e off-road moderado. Em lama profunda começa a perder eficiência, mas pra 95% das rotas da América do Sul é o pneu certo. Mud-Terrain (MT) Banda de rodagem muito mais agressiva, composto duro, feito pra lama e off-road severo. Em asfalto seco é barulhento, menos eficiente e desgasta mais rápido. Em trilha pesada ou lama é o melhor. Pra rota overland convencional pela América do Sul, ripio, deserto, estepe, alguns trechos molhados, é excessivo na maioria dos casos. Se a viagem envolve muitos dias de trilha difícil ou como por exemplo estradas da amazônia ou pantanal, aí começa a fazer sentido. Calibragem, o ajuste que a maioria ignora. A calibragem correta faz mais diferença que o tipo de pneu em muitos terrenos. A mesma borracha se comporta de forma completamente diferente com 36 psi e com 24 psi. No asfalto: calibragem padrão do fabricante, geralmente 32 a 36 psi. Não economiza calibrando menos, desgaste irregular, aquecimento excessivo e consumo maior. No ripio/cascalho: reduz para 26 a 28 psi. O pneu ganha mais área de contato, absorve melhor as irregularidades e fura menos. A velocidade máxima cai, o que é natural, em ripio não se deve exceder 80 km/h de qualquer forma. No off-road pesado (pedra, areia, lama): reduz para 18 a 22 psi. Footprint maior, tração melhor, risco menor de furo em pedras pontiagudas. Com calibragem tão baixa, evita curvas rápidas e velocidade alta. Importante: ao voltar ao asfalto, calibra de volta. Rodar no asfalto com pneu murcho aquece o pneu excessivamente e pode causar dano ou estouro. Mantenha um calibrador confiável e um compressor de 12V no veículo,investimento barato, valor enorme. Quantos estepes levar Uma viagem com 100% de asfalto: um estepe basta. Viagem com muitos trechos de ripio: dois estepes é de se pensar, (se você estiver viajando sozinho). Furo duplo em ripio severo não é raridade, pedra cortante pega dois pneus na mesma passagem. Quem leva um só estepe e fura duas vezes fica a pé e ai pode se complicar. Viagem longa ou com trechos muito remotos: dois estepes de tamanho completo + um kit de reparo temporário (plugues de borracha) pra furos simples que permitem rodar até a borracharia. Onde guardar: o segundo estepe, se o veículo não tiver suporte traseiro, vai dentro do baú ou preso no rack do teto. Vale o investimento no suporte de estepe traseiro pra liberar espaço interno. Kit de reparo de pneu, o que sempre ter no carro. O kit básico cabe numa caixa pequena e resolve a maioria dos furos simples na estrada:
Plugues de reparo (tipo cogumelo ou espiral): reparo temporário que permite rodar até borracharia. Fácil de aplicar, funciona em 90% dos furos em banda de rodagem. Cola de borracha: acompanha alguns kits. Talhadeira e alargador: instrumentos pra aplicar o plugue. Compressor 12V: obrigatório. Sem ele, mesmo com o reparo feito, não infla o pneu. Escolhe modelo com mangueira comprida o suficiente pra alcançar todos os pneus sem mover o carro. Macaco adequado pra carga: o macaco de série de muitos SUVs e picapes não aguenta a carga com equipamento de viagem. Verifique a capacidade antes de sair. Chave de roda correta: parece óbvio, mas confere se a chave de série destrava seus parafusos pois parafusos torqueados na montadora às vezes não cedem sem barra de extensão.
Desgaste e quando trocar antes da viagem Pneu com menos de 4 mm de profundidade de sulco não vai a viagem longa com ripio. O indicador de desgaste fica embutido no sulco, quando a borracha alcança o nível da seta, está no limite legal e no limite de segurança real. Pneus velhos com sulco ainda bom mas com mais de 6 anos de fabricação (data impressa no flanco, formato WWYY, semana e ano) começam a endurecer e rachar internamente. Em temperatura alta de asfalto + carga pesada de viagem, o risco de estouro aumenta. Troca antes de partir. Antes de qualquer viagem longa com ripio: faça o rodízio dos pneus (incluindo o estepe se for tamanho normal) e verifique balanceamento e alinhamento. Pneu desbalanceado em ripio vibra muito mais que no asfalto, e a vibração transmitida ao veículo acelera desgaste de suspensão. Use o GT Overlander pra planejar sua rota antes de decidir o pneu, com o trajeto desenhado e os trechos de ripio identificados, você decide com muito mais precisão se precisa trocar pra AT antes de sair ou se o HT de série aguenta o que a rota exige. FAQ Vale a pena trocar pra AT antes de uma viagem pela Argentina? Depende do roteiro. Patagônia argentina com Carretera Austral ou Rota 40 com trechos de ripio: vale muito a pena. Buenos Aires + Mendoza + vinhedos em asfalto quase todo: o HT de série passa bem. Mapeie os trechos de ripio do roteiro antes de decidir. Posso calibrar diferente entre eixo dianteiro e traseiro? O fabricante geralmente recomenda calibragens diferentes pra frente e trás (trás costuma ser um pouco mais cheio, especialmente com carga). Siga a tabela da porta do motorista do seu veículo. Ela especifica por carga. Pneu AT aumenta muito o consumo? Em média 5% a 10% a mais que HT no asfalto, dependendo da marca e do perfil. Considera isso no orçamento de combustível pra viagem longa. Borracharia tem na Carretera Austral ou no Salar de Uyuni? Na Carretera, nas vilas maiores (Coyhaique, Cochrane) sim. Em trechos remotos entre vilas, não. No circuito do Salar de Uyuni, em Uyuni tem. No trecho das lagunas bolivianas (Lagunas Colorada, Verde), não tem absolutamente nada. É onde mais se precisa de dois estepes. Posso usar o estepe "step-down" (menor que os outros) em ripio? Tecnicamente dá pra sair do aperto, mas estepe pneu-misto menor não aguenta ripio por muitos quilômetros. O diferencial e a suspensão pagam o preço. Rode devagar e troca assim que possível por pneu de tamanho correto. Pra fechar Pneu certo é seguro silencioso, você não pensa nele enquanto está funcionando. Pneu errado vira protagonista da história numa hora que você definitivamente não quer protagonismo. A troca pra AT antes de uma viagem com ripio sério não é gasto: é o item de preparação com melhor custo-benefício de toda a lista. E dois estepes no porta-malas custam bem menos que um reboque no meio do Altiplano boliviano.
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Escrito por
Rangel Machado
Empresário e viajante. Fundou o GT Overlander pra ser o app que ele mesmo queria ter na própria estrada, e desde então lidera produto e visão ouvindo de perto quem viaja.
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